Sê forte. Não leves a peito tudo o que dizem. Não confies demasiado, pra teu próprio bem. Guarda a piada para ti, o comentário em forma de alfinetada, a língua afiada. Protege-te. Não te exponhas demasiado para tua própria segurança. Depois do erro cometido, é difícil dar a volta. Depois de deixares transpor certas barreiras, já foste. És mulher, és o teu corpo e a tua mente. És mulher num mundo cada vez mais machista. Tens a honra de ser mulher. Só por isso já és (...)
Se algum dia conseguir ser feliz na plenitude, vai ser estranho. Quero muito que esse dia chegue, finalmente sem amargura nem sombras nem gatilhos, inseguranças, tendências inconscientes. Suicídio como escape. Dor. Medo, sempre tão presente. Olhar em frente com esperança, sem temer o futuro. Quando entra areia na ostra, ela forma uma pérola. Portanto há muito trabalho interno a fazer, monstros a enfrentar... e talvez saia disto com a graciosidade duma pérola, no meu caso, negra.
Antes de mais, muito obrigada a equipa da Sapo pelo destaque. Foram só uns stilletos,que me magoaram os pés, mas pronto, foi mais uma história para contar. Nunca soube lidar com a minha feminilidade. Acabei por adoptar o estilo t-shirt, jeans e sapatilhas quechua, que não é muito diferente do que uso no trabalho. Só muda o calçado- nada de Manolo Blatnik- mas umas botas Lavoro, tamanho 42, que me amortecem o andar, que são claramente masculinas, altamente úteis. Tento passar o (...)
Já são poucas as aldeias que têm lavadouros, aqueles tanques enormes de lavar a roupa. E ainda menos quem os use. Perdeu-se o sentimento de comunidade, a política divide famílias, amizades, luta-se por um mínimo centímetro de chão, vai-se a tribunal, acontecem desgraças... Em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Em terra de pobreza, ter poder faz toda a diferença. Tive a sorte de crescer numa família onde não havia fanatismo nem invejas de cargos. Nem íamos nas caravanas. (...)
E tem sido cruel comigo. A doença veio depois de um acidente de trabalho num sítio onde detestava estar, onde era mal vinda desde que pus lá os pés num primeiro dia de quase dois anos e meio. Na altura sentia-me com coragem para enfrentar tudo e todos, nada me afectava (achava eu!). Eu ia sair gloriosa da situação e a outra colega ia embora. Final feliz. E efectivamente ela foi embora, no dia seguinte foi o meu último dia lá. Ironias... Depois passei meses sem querer ver ninguém, (...)
Deixa o mundo lá fora. Sacode as botas, larga o fato-macaco. Fuma um cigarro à estupidez dos teus colegas. E a mesquinhez. E ao mau feitio. Cláusulas que não vêm no contrato mas estão subentendidas. Faz parte. A gente sabe. É lidar, é tentar lidar, é ter o sos à mão para não panicar, é saber mandar passear sem usar palavrões, se bem que são uns cabrões. É pior lidar com os colegas do que com a chefia, por mim falo. Os lambe botas, essa estirpe de colegas sebosos, são (...)
A raiva corroi-me por dentro. É um facto difícil de admitir, difícil de lidar e, sobretudo, livrar-me dele. Sei o mal que me faz. Mas também sei de onde veio. Não é um sentimento mesquinho como a inveja, é revolta e injustiça, foi ter começado a vida logo em desvantagem, foi ter perdido a trave mestra mal vim ao mundo, é ter o peso dessa partida para sempre ligado a mim... São os dois M's que me definem, mãe e morte, tantas vezes falados na terapia. É não perceber porque não (...)
Não vás por aí, vais encontrar o bicho papão e não vais ser capaz de lutar com ele. Anda antes para aqui estás melhor (pausa para pigarrear). Olha que aquela pessoa não é bem intencionada. Olha que naquele trabalho não vais ser feliz. E naquele outro também não, devias voltar à casa de partida, aí não é lugar para ti. Não te dou dois meses fora da nossa asa. Tu não consegues, eu sei. Deixa-te ficar, sorri para quem te fez lá no passado mas isso já passou. Este lado da (...)
Saias rodadas. Gente a rodopiar nos arraiais ao som de música pimba de que toda a gente gosta mas ninguém admite. Bandeirinhas penduradas, cerveja a rodo, cheiro a fumo no ar e na roupa. Pés doridos ao fim da noite. Glitter e copos de plástico e gente que, de ser tanta, mal se consegue mexer. Pivete a suor, línguas de todo o mundo num só mundo em que ninguém se entende, só falando em Caps Lock e e.... Isto é nos bairros alfacinhas,contam, nunca lá fui... Na aldeia é parecido, (...)
Podia ficar aqui perdida em redondilhas,a opinar sobre o que toda a gente opina, erguer o meu pescocito e pedir a palavra. Ou ser mais uma a destilar veneno nas caixas de comentários por essa Internet fora. Seria mais uma. Seria. Não sou. Tenho mais que fazer. Sou técnica paisagista no património mundial que é o Douro. Os socalcos são o sustento de muitos. Preocupa-me ter uma tesoura que não me mace os pulsos e seja eficiente. Preocupa-me ter água suficiente para as 8h de trabalho. (...)