O tanque
Já são poucas as aldeias que têm lavadouros, aqueles tanques enormes de lavar a roupa. E ainda menos quem os use. Perdeu-se o sentimento de comunidade, a política divide famílias, amizades, luta-se por um mínimo centímetro de chão, vai-se a tribunal, acontecem desgraças... Em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Em terra de pobreza, ter poder faz toda a diferença. Tive a sorte de crescer numa família onde não havia fanatismo nem invejas de cargos. Nem íamos nas caravanas. Nem aos comícios. Tínhamos um tanque em casa, o lavadouro ficava longe e o gado ia lá muitas vezes beber água. Hoje em dia está abandonado... Toda a gente tem máquina de lavar roupa, poucos sabem lavar a mão. Mas, num dia mau ir lavar é uma catarse. Damos uma tareia á roupa que no fim já não sabemos qual era o problema. As diferenças entre sabão azul, cor de rosa e clarim. Saber dissolver o omo na água para não ficar na roupa. Pôr roupa a cora- ensaboar e pôr ao sol para ajudar na lavagem. Perdi a conta às vezes que engranhei as mãos. E apanhei frieiras. E o quanto me doiam. Agora visto de longe, até dá saudades. E se naquela altura achava que me restava a eternidade ali, não sabia de todo o que a vida tinha guardado para mim. Longe disso.